Sou contra a Marvel, por isso só leio os X-Men
- analuisa4063
- 14 de mai.
- 4 min de leitura
Em um mundo tão caótico, é natural que busquemos fazer nossa parte. Até porque foi assim que nos ensinaram nas escolas. Quando crianças, nunca faltaram adultos nos dizendo que se separássemos o lixo, se economizássemos água e se apagássemos as luzes depois de sair de casa, o mundo se tornaria um lugar melhor. Ao crescer, no entanto, percebemos que as verdadeiras soluções não estão aí. Entendemos que o tempo de banho de nada resolve se latifúndios seguem gastando água ou se a separação de lixo muitas vezes não é mais do que caixas coloridas que nos fazem sentir melhores consigo mesmos. Aprendemos, então, que a verdadeira arma a nosso dispor para mudar o mundo é o consumo e as escolhas que fazemos na hora de ir às compras. Mas será?

Nos dias de hoje, por exemplo, não é preciso ir muito longe para encontrar convites para boicotes. Eles inundam a internet e tomam parte significativa do debate de ambos os lados do espectro político. As motivações, por certo, variam. Podem abraçar como causa tanto pautas ambientais quanto temas ligados à tradição. Essas mensagens trazem muitas vezes consigo conteúdos apelativos. E tentam nos pintar como vítimas e algozes da mesma sociedade. Quase como se passasse por nós o poder e a missão de mudar o mundo. Contudo, é preciso observar que o sistema em que vivemos é um pouco mais complexo do que isso, e que as redes que nos conectam são um pouco mais emaranhadas.
Imagine, por exemplo, a compra de um sorvete. Entre uma vasta gama de produtos expostos nos frigoríficos, muitos fatores podem influenciar nossa decisão. Sabores, valores e logomarcas, por exemplo, são normalmente pontos determinantes para que se efetue uma compra. Mas há alguns condicionantes que entram no cálculo mesmo sem estarem expostos na estante. Em tempos recentes, um desses elementos de maior relevância é a participação de determinadas marcas no conflito entre Israel e a Palestina.
Um indivíduo que defenda as ofensivas de Israel estaria mais propenso a comprar um sorvete da Kibon do que um da Ben & Jerry's. Em contrapartida, o contrário aconteceria para alguém que se solidarize mais com a causa palestina. Ambas as empresas estão no centro do furacão midiático e das disputas comerciais trazidas pelo conflito, como, por exemplo, listas de boicote varrendo a internet. A verdade, contudo, é que, apesar de suas diferenças, ambas são empresas irmãs, controladas pelo mesmo conglomerado. Além delas, outras 100 marcas fazem parte da Magnum Ice Cream Company, o braço de sorvetes da gigante de alimentos Unilever, que controla sozinha 21% do mercado global de sorvete.
Mas a gigante britânica não está sozinha nesse tabuleiro empresarial. Outros players, como a suíça Nestlé e a americana PepsiCo, ocupam espaço de destaque no jogo para ocupar a mesa das famílias ao redor do mundo. Usando de diferentes emblemas e nomes, elas se fantasiam e ocupam os supermercados como se fossem empresas diferentes. Muitas delas até se pintam como concorrentes. Um exemplo disso são salgadinhos como Doritos e Ruffles, ambos pertencentes à mesma companhia.
Quem vai aos Estados Unidos, por exemplo, se surpreende com a variedade de produtos e possibilidades nas prateleiras. Mas basta um olhar minimamente atento para perceber que isso não passa de mera ilusão. A realidade, como revelada pelo The Guardian e pela Food and Water Watch, é um pouco mais sombria. Por lá, apenas 5 empresas fornecem 80% dos mantimentos consumidos diariamente no país e controlam em média 64% das vendas dos principais produtos. Segundo a investigação, apenas 3 empresas são responsáveis por 97% dos refrigerantes comprados no país e 80% dos chocolates.
E no Brasil não é tão diferente. Segundo a Federação de Trabalhadores do Comércio, as dez maiores companhias do ramo alimentício são responsáveis por 60% a 70% das compras de uma família. O cenário é tão calcificado que o que sobra do mercado acaba sendo disputado por 500 empresas regionais.
Para piorar a situação, essas corporações têm usado seu poder crescente para pressionar agricultores. As 10 maiores empresas do ramo alimentício passaram a controlar não apenas as prateleiras, mas também os valores a serem pagos a fazendeiros. E mais, são elas que ditam como essa produção deve ser feita. Elas se aproveitam do poder político acumulado nas últimas décadas para tirar proveito da fiscalização precária e maximizar os próprios lucros. Hoje no Brasil alguns dos salários mais mal pagos estão exatamente no setor agropecuário, apesar de ser um segmento tão importante da economia brasileira. E mais do que isso, a informalidade tomou conta das fazendas, e segundo a Fundação Arymax, 66% dos trabalhadores já estão nessas condições. Mas o problema não se restringe a nós. Nos Estados Unidos, outra potência agrária, para cada dólar gasto, apenas 15 centavos acabam indo parar nas mãos dos agricultores.
Infelizmente, o que esses dados revelam é que a nossa sensação de livre arbítrio e de que podemos fazer a diferença na hora de ir às compras não passa de uma mera ilusão. Boicotes, embora alguns casos funcionem, e assim como lixeiras de reciclagem, muitas vezes servem mais para nos sentirmos melhores com nós mesmos do que para efeitos práticos. Mas isso não quer dizer que nossa consciência seja em vão. Se ainda há uma possibilidade de resistência, ela reside no voto para mudanças estruturais. No apoio aos pequenos produtores e comerciantes, para fortalecer circuitos mais curtos de produção e consumo. E, claro, da pressão exercida nas redes. Não existe solução individual, mas isso não impede que cada um faça sua parte. É preciso lembrar às grandes corporações de seus compromissos, seja com os acordos firmados na ONU, como o de que devem fiscalizar toda sua cadeia produtiva para impedir abusos, ou seja, com a própria história. Gigantes como a Danone, por exemplo, foram fundados como uma resposta à fome. Isaac Carasso, fundador da empresa, começou a fabricar e vender iogurte quando viu crianças na Espanha, sofrendo de problemas intestinais. É preciso que essas empresas se reencontrem com elas mesmas e percebam que é preciso ter um mundo para só então poder alimentá-lo.
Por: Francisco Jose Dantas de Faria



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