top of page

Indignação: use e descarte

  • analuisa4063
  • 24 de jul.
  • 3 min de leitura

Há algo profundamente inquietante em nosso tempo: não a quantidade de escândalos que atravessam o noticiário, nem a velocidade com que uma crise substitui a outra, mas o fato de já não sabermos permanecer indignados. O absurdo deixou de ser exceção e tornou-se tela de fundo.


Acordamos com denúncias envolvendo figuras públicas, investigações sobre redes de exploração sexual, guerras transmitidas em tempo real, discursos que colocam em dúvida direitos conquistados há décadas. Por algumas horas, as redes sociais se inflamam — comentamos, compartilhamos, nos revoltamos. Então o algoritmo entrega um novo vídeo, uma nova tendência, uma nova distração. E seguimos em frente.

Poderíamos dizer que vivemos uma era absurdista, mas Camus provavelmente discordaria. Para ele, reconhecer o absurdo da existência não significava abandonar a responsabilidade — significava assumi-la. Diante de um universo sem respostas prontas, caberia ao ser humano responder com lucidez e revolta: não à violência, mas à recusa de aceitar a injustiça como destino. Nós fizemos o contrário. Transformamos o absurdo em entretenimento.

Nietzsche talvez reconhecesse aqui a realização de um de seus maiores temores. Ao escrever sobre a "morte de Deus", não celebrava o fim da religião — advertia que uma sociedade poderia perder seus referenciais morais antes de construir valores capazes de sustentá-la. O vazio resultante seria preenchido pelo consumo e pela busca incessante por distração. Hoje, esse vazio cabe na palma da mão. Deslizamos o dedo pela tela enquanto o mundo muda diante dos nossos olhos.

Há poucos dias, milhões acompanharam novos desdobramentos do caso Epstein envolvendo pessoas poderosas. A indignação pareceu inevitável — até que outro assunto tomou seu lugar. Declarações de influenciadores questionando o voto feminino, direito conquistado há mais de noventa anos no Brasil, seguiram o mesmo roteiro: ocuparam o debate, geraram revolta e desapareceram com a próxima onda viral.

E apesar de tudo, o problema não está somente nesses acontecimentos. Está na velocidade com que deixamos de considerá-los importantes — a sociedade até reflete sobre eles, mas já perdeu a capacidade de distinguir o impensável do aceitável.

Arendt alertava que o mal se torna banal quando as pessoas deixam de pensar criticamente. Debord observou que a sociedade moderna substitui a experiência pela representação, transformando tudo em espetáculo. Bauman descreveu relações líquidas demais para sustentar compromissos duradouros. Décadas depois, entendemos que essas não eram apenas reflexões; eram advertências.

A política virou produto de consumo. Escândalos competem por atenção com vídeos de quinze segundos. A verdade disputa espaço com algoritmos programados para premiar o que desperta emoção rápida, não o que exige reflexão. A mentira já não precisa convencer — basta circular mais depressa que os fatos.

Nesse ambiente, a democracia adoece em silêncio. Porque democracia não depende só de eleições; depende de cidadãos capazes de sentir que certas coisas são inaceitáveis. Depende de uma população que se recuse a tratar a corrupção como rotina, a mentira como estratégia, o retrocesso como opinião legítima só porque ganhou espaço nas redes.

Nenhuma civilização avança por inércia. Cada direito existe porque alguém, em algum momento, recusou-se a aceitar o mundo como estava. Mulheres votam porque houve quem enfrentasse a ordem estabelecida. Trabalhadores têm direitos porque houve quem desafiasse a exploração. Democracias sobrevivem porque existem cidadãos dispostos a defendê-las. Quando deixamos de acreditar que nossas ações importam, deixamos também de construir o futuro.

O maior retrocesso do nosso tempo não é econômico nem tecnológico. É moral: estamos perdendo a capacidade de permanecer escandalizados. E uma sociedade incapaz de distinguir o intolerável do apenas inconveniente torna-se perigosamente fácil de manipular. O autoritarismo nem sempre nasce da força — às vezes nasce do cansaço de uma população que trocou a participação pela contemplação e a responsabilidade pelo entretenimento.

Camus dizia que a resposta ao absurdo era a revolta. Resta saber quanto tempo mais vamos confundir indignação com consumo — e chamar isso de consciência.


Por: Sthefannie Ramos Lima

 
 
 

Comentários


bottom of page