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Panem et Circenses: ainda estamos distraídos?

  • analuisa4063
  • há 1 hora
  • 4 min de leitura

Quando estava no oitavo ano, tive uma professora de história que, enquanto estávamos a aprender sobre Roma Antiga, citou a famosa, mas até então desconhecida por mim, política do pão e circo - ou melhor, panem et circenses.


Ilustração de ruas romanas com vendedores - Getty Images
Ilustração de ruas romanas com vendedores - Getty Images

Lembro de ter uma admiração quase fraternal por essa professora e, no meio de sua explicação, eufórica por receber tantos conhecimentos, ela parou ao lado da minha mesa e disse: "Isso te lembra alguma coisa?


Só sei que mesmo depois de tantos anos, tantos meses e tantas mudanças, nunca vou esquecer desse ato de amor que ela teve por mim e pela minha turma, em pleno ano de eleição no Brasil.


E sim, mesmo depois de tanto tempo, a resposta que dei ainda é a mesma.


Panem et circenses, ainda?


Originada de uma expressão popular, veio de uma estratégia de governantes romanos que, para manter a sociedade satisfeita e evitar revoltas populares que pudessem ameaçar o poder político, distribuíam alimentos e espetáculos de entretenimento gratuito. A lógica era clara: quanto maior o evento, mais satisfeitas as pessoas estariam, esquecidas dos problemas que enfrentavam. Falando de uma maneira informal, eles literalmente acreditavam que aquela risada em um festival, aquele time que perdeu para o seu, e esses tipos de coisa iriam alugar um triplex na sua cabeça e fazer você inconscientemente só buscar por comida e diversão.


Mas e se a gente olhar por um buraco de fechadura? Esses problemas que Roma passava não eram de todo diferentes do nosso. Eles eram: a corrupção, saúde precária, educação deficiente e… se eu adicionar mais alguns não tão distantes?


  • perseguição de gênero

  • falta de representação feminina política

  • falta de incentivo à educação


 Isso me lembra meu Brasil. O seu, o nosso Brasil. E seguindo a fórmula mágica do esquecimento social, nessa mistura acrescentamos a Copa Mundial, um evento que convida a todos a se reunirem para assistir aos jogos e vestir suas blusas, enquanto repetem o hino nacional com todo orgulho em pleno ano de Copa do Mundo.


Quem diria que uma tática política datada de mais de 350 anos ainda resiste?


Brasil: o país que se esqueceu de lembrar


Parece mórbido, concordo com você, mas calma, senta aqui, vamos conversar sério agora.


O Brasil é um dos maiores alvos globais do que a comunidade científica vem chamando de amnésia social, onde governos, instituições e os livros de história determinam quais acontecimentos devem ser celebrados e quais varridos para baixo do tapete. Talvez seja para quando a seleção brasileira estiver empatando de 1x1, não ter mulheres jovens criando projetos de leis reafirmando seus direitos com base na Constituição Federal, vai saber.

Acontece que desde o primórdio o ser humano costuma esquecer acontecimentos que entram em choque com as crenças atuais do seu grupo social. Se lembrar de algo causa desconforto ou culpa, a sociedade desenvolve mecanismos de defesa para reescrever ou ignorar o passado - e também chutar na trave o presente - enquanto todo o contexto político corre contra o tempo no nosso ano mais decisivo.

Para além de jogadores machucados em campo que nunca mais retornaram ou goleiros no meio do campo, o nosso país enfrenta algo silencioso chamado ‘’falta de representatividade feminina na política’’ e posso te exemplificar! Quando te digo a frase ‘’ministros no STF (Supremo Tribunal Federal)’’ com certeza o nome Alexandre de Moraes vem à sua mente, mas dando uma pesquisada rápida no telefone, não custa muito comprovar que ao longo de 130 anos de história, só tivemos esse papel ocupado por apenas três mulheres nessa posição.


Com toda certeza, as famílias, grupos de resenha, grupos de bar, quando se encontram para assistir a um jogo, pensam: ‘’caramba, só tivemos 3 mulheres na história do STF’’ e logo depois, quando o último apito tocar, a propaganda começará, propostas, ótimos nomes, outros nem tanto. Mas no final de tudo, quem não sabe cada função - ou está afundado demais em suas próprias queixas - esquece que seu voto importa.


Está nas suas mãos 


A nomeação de ministros do STF ocorre em duas etapas: indicação pelo Presidente da República e aprovação pelo Senado Federal. E para que serve um ministro afinal?


Enquanto nos ensinaram que devemos ser assíduos para votar nos vereadores, deputados, que nesse momento vão ser os nossos jogadores recém-chegados na seleção, os ministros, apenas atrás dos presidentes, têm o passe mais caro do campo. Já que dependendo de sua área de atuação podem ser guardiões da constituição federal, analisam complexidade jurídica, supervisionam a elaboração de órgãos e entidades da administração pública. Tudo isso em âmbito nacional.


Depois de te colocar essa pressão, colocar esse pesado bastão em suas mãos, te entrego o meu voto mais sincero. Ser patriota é muito mais do que vestir uma camisa. Ser patriota de verdade é enxergar esses momentos com uma precisão absurda da noção de como a eleição de um candidato político vai definir o rumo das histórias de milhares de brasileiros e, em certos casos, a história de uma geração mundial.


E tenho atualizações para você, já existem movimentos e institutos se preparando para esse movimento mais especial para nós mulheres de todas as cores, orientações e estados. Movimentos como o Mulheres Mulheres Negras Decidem e Senadoras do Brasil são grandes articuladores que levantam diariamente essa pauta dentro e fora das redes sociais e nos mostram que mesmo jovens, defender a seleção no futebol masculino e feminino é lutar por quem leva o nome do nosso país ao redor do mundo em debates internacionais decisivos.



Sua consciência agora pode mudar o rumo de toda a nossa história, depois de séculos estruturados em uma sociedade onde nós, meninas e mulheres, fomos subestimadas e colocadas para fora de campo. Fico por aqui e até logo!


Por: Mari Baptista


 
 
 

1 comentário


Maria Clara Da Silva Baptista
Maria Clara Da Silva Baptista
há uma hora

Que maravilha saber onde podemos chegar com nossas articulações!! Muito grata por poder participar desse movimento com todas vocês e ter uma coluna publicada!💕🇧🇷🇧🇷

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