Noventa minutos de pátria
- analuisa4063
- 28 de mai.
- 3 min de leitura
Existe um Brasil que só aparece de verde e amarelo.
Ele não mora no orçamento federal, não frequenta audiências públicas e, definitivamente, não aparece nas discussões sobre o corte de verbas educacionais. Mas a cada quatro anos, pontualmente, ele ressurge: nas janelas, nas ruas, nas timelines e nos stories. Esse Brasil bate no peito, chora no hino e transforma qualquer bar em uma arena política. Ele dura exatamente noventa minutos — mais o acréscimo, se o jogo estiver bom.
E depois some.

É quase um fenômeno folclórico. O país que ignora sistematicamente a estrutura esportiva durante 1.460 dias consecutivos acorda, na semana da Copa, profundamente comprometido com o futuro do futebol nacional. Políticos vestem a camisa da seleção para publicar fotos. Comentaristas redescobrem o amor pela pátria. E toda uma nação que passou o ano sem financiar uma única quadra escolar passa a opinar com autoridade sobre escalação, tática e destino coletivo.
Neymar, nesse cenário, virou mais do que jogador. Virou Títere.
Qualquer crítica ao seu desempenho é lida por alguns como ataque ideológico. Qualquer defesa, como posicionamento partidário. O futebol, que já foi espaço de unidade, passou a integrar a guerra cultural brasileira. Nesse território árido onde tudo vira trincheira e ninguém sai de campo sem se machucar, comentar um jogo virou confissão política.
E possivelmente isso diga menos sobre Neymar e muito mais sobre o Brasil contemporâneo.
Mas enquanto o debate público transforma jogadores em símbolos nacionais, existe uma pergunta muito menos glamorosa e muito menos comentada: o que o Brasil realmente faz pelo esporte fora dos grandes campeonatos?
Porque, na prática, o país parece amar o espetáculo esportivo com muito mais entusiasmo do que a estrutura invisível que o torna possível.
Durante grandes eventos, políticos aparecem vestindo a camisa da seleção, publicando fotos, comentando partidas e surfando com desenvoltura no engajamento coletivo que o futebol inevitavelmente produz. O patriotismo vira estética e o esporte vira narrativa eleitoral.
Mas essa euforia raramente se traduz em investimento contínuo.
A proposta orçamentária enviada ao Congresso para 2025 previa uma redução significativa dos recursos destinados ao Ministério do Esporte — que já opera com dotações historicamente modestas, representando menos de 0,1% do orçamento federal. Mesmo após recomposições parciais posteriores, o episódio evidenciou algo importante: o esporte no Brasil ainda costuma depender mais de articulações momentâneas, emendas parlamentares e pressão midiática do que de prioridade orçamentária genuína.
E os números do cotidiano confirmam o que os cortes anunciam.
Segundo dados do IBGE, apenas 27% das escolas públicas brasileiras possuem quadra esportiva — e boa parte dessas estruturas está em condições precárias de uso. Projetos esportivos sobrevivem com dificuldade fora dos grandes centros. Programas de democratização do esporte enfrentam baixa adesão, descontinuidade e subfinanciamento justamente nas regiões onde o esporte poderia funcionar com mais força como ferramenta de pertencimento, proteção social e oportunidade.
Enquanto isso, milhares de jovens seguem treinando em estruturas improvisadas, quando treinam.
O Brasil ama o resultado do esporte. Mas evita, com uma consistência impressionante, financiar o processo.
E essa é uma das maiores contradições nacionais — não a única, mas uma das mais escamoteadas.
Porque o esporte nunca foi apenas entretenimento. Esporte é política pública com retorno mensurável. Está diretamente relacionado à permanência escolar, saúde mental, convivência social, prevenção à violência e construção de perspectiva de futuro para milhares de jovens. Pesquisas mostram que programas esportivos bem estruturados reduzem em até 30% a evasão escolar em populações vulneráveis — um dado que dificilmente aparece nos discursos de Copa.
Quando uma escola não possui estrutura esportiva adequada, isso não afeta apenas os campeonatos escolares. Afeta o próprio vínculo dos estudantes com o ambiente educacional. Em muitos bairros periféricos, a quadra, quando existe, é um dos poucos espaços possíveis de encontro e lazer coletivo. Retirá-la do horizonte não é apenas um problema esportivo. É um problema de cidade, de infância, de futuro.
Ainda assim, o debate sobre esporte costuma aparecer no radar público apenas quando existe medalha, Copa, Olimpíada ou algum atleta suficientemente famoso para movimentar os feeds.
Quem sabe por isso Neymar tenha se tornado um símbolo tão carregado. Porque o Brasil projeta em seus atletas algo muito além do futebol: frustração acumulada, orgulho frágil, identidade nacional em disputa, polarização política e esse desejo coletivo de vitória que a realidade cotidiana nem sempre oferece.
Mas nenhum país forma atletas de alto nível apenas com torcida.
E nenhum jovem deveria precisar transformar talento bruto em milagre logístico para conseguir simplesmente permanecer no esporte.
Durante noventa minutos, o país inteiro acredita no futebol.
O problema, e a pergunta que fica, é o que acontece quando o apito final soa.
Por: Sthefannie Ramos Lima



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