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Main character da própria vida ou NPC do sistema?

  • analuisa4063
  • há 7 dias
  • 3 min de leitura

Há uma pergunta que me acompanha toda vez que vejo mais uma rotina de estudos viralizar na internet.


Cronogramas coloridos. Simulados. Metas. Horas líquidas. Aprovações. Rankings.

Tudo muito organizado. Tudo muito eficiente.

Mas, em meio a tanta preparação para o futuro, surge uma inquietação difícil de ignorar:

Estamos formando cidadãos ou apenas candidatos ao vestibular?

A pergunta pode parecer exagerada à primeira vista. Afinal, estudar continua sendo uma das ferramentas mais importantes para a transformação social. Em um país marcado por desigualdades históricas, o acesso à educação ainda constitui uma das principais portas para a mobilidade social.

Mas aqui o problema não está no valor que damos à educação — está no significado que passamos a atribuir a ela.

A Constituição Federal brasileira afirma, em seu artigo 205, que a educação deve visar ao pleno desenvolvimento da pessoa, ao preparo para o exercício da cidadania e à qualificação para o trabalho. A ordem é interessante. Antes da profissão, vem a pessoa. Antes do mercado, vem a cidadania.

No entanto, basta observar a realidade de milhares de estudantes para perceber uma subversão sutil.

A escola passou a ser vista principalmente como uma ponte para o vestibular. — E o vestibular, como uma ponte para a universidade. A universidade, como uma ponte para o mercado. E o mercado, como a promessa final de uma vida bem-sucedida.

Mas em que momento deixamos de discutir quem desejamos ser para discutir apenas o que desejamos fazer?

Há mais de dois mil anos, Aristóteles defendia que o objetivo da educação não era apenas transmitir conhecimentos, mas formar pessoas capazes de viver bem em comunidade. Para ele, uma sociedade saudável dependia do cultivo de virtudes como prudência, justiça, amizade cívica e responsabilidade coletiva.

Parece que essa reflexão é mais atual do que gostaríamos de admitir.

Vivemos em uma geração extremamente conectada, mas que frequentemente relata sentimentos de solidão. Temos acesso instantâneo à informação, mas encontramos dificuldade para dialogar com quem pensa diferente. Aprendemos fórmulas complexas, mas muitas vezes saímos da escola sem compreender plenamente como funcionam nossas instituições, nossos direitos ou nossas responsabilidades enquanto cidadãos.

Não se trata de desmerecer o esforço dos estudantes.

Pelo contrário.

Acredito que nunca tenhamos visto uma juventude tão pressionada antes.

Pressionada para produzir.

Pressionada para performar.

Pressionada para transformar cada talento em currículo, cada hobby em renda e cada minuto livre em vantagem competitiva.

E então surge uma pergunta ainda mais desconfortável:

Os nossos sonhos são realmente nossos?

Ou estamos apenas perseguindo versões de sucesso que aprendemos a admirar?

Quando crianças, muitos sonham em escrever, criar, ensinar, pesquisar, pintar, cuidar, descobrir ou servir. Com o passar dos anos, porém, esses sonhos frequentemente passam por um filtro invisível: sua utilidade econômica.

Começamos a perguntar não apenas "o que eu amo fazer?", mas "isso dá dinheiro?", "Isso tem mercado?" "Isso gera status?"

São perguntas legítimas.

Mas tornam-se perigosas quando passam a ser as únicas.

Porque uma sociedade não se sustenta apenas com profissionais tecnicamente qualificados.— Ela também precisa de cidadãos éticos, críticos, participativos e conscientes do bem comum.

E é justamente aqui que a política entra na conversa.

A forma como educamos nunca é neutra.

Decidir quais disciplinas recebem mais atenção. Determinar quais habilidades serão valorizadas. Definir o que significa sucesso acadêmico. Tudo isso são escolhas políticas.

Quando a cidadania se torna secundária e a produtividade se torna central, estamos transmitindo uma mensagem poderosa sobre quais valores desejamos cultivar como sociedade.

E por isso a pergunta inicial é tão importante.

O Brasil está formando jovens capazes de passar em provas?

Ou jovens capazes de transformar comunidades?

Está formando excelentes candidatos?

Ou excelentes cidadãos?

A boa notícia é que uma coisa não exclui a outra.

Não precisamos escolher entre formação profissional e formação humana.

A própria Constituição já nos oferece esse caminho ao defender uma educação voltada simultaneamente para o desenvolvimento da pessoa, para a cidadania e para o trabalho.

O desafio está em recuperar esse equilíbrio.

Porque vestibulares passam.

Profissões mudam.

Mercados se transformam.

Mas caráter, empatia, senso de comunidade e compromisso com o bem comum permanecem.

A pergunta mais importante para a nossa geração não é apenas em qual universidade queremos entrar.

É outra:

Que tipo de pessoa desejamos nos tornar quando finalmente sairmos dela?


Por: Sthefannie Ramos Lima

 
 
 

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