As desvantagens de ser invisível
- analuisa4063
- 4 de jun.
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Comecei a namorar no primeiro ano do ensino médio. Honestamente, nada de excepcional nos juntava. Éramos, como ainda somos, um casal normal. Partilhávamos das mesmas origens, estudávamos no mesmo colégio e tínhamos a mesma idade. Aos 15 anos, como a maior parte dos casais dessa faixa etária, não sabíamos muito bem como funcionava aquilo. Estávamos aprendendo juntos e todas as informações que tínhamos vinham dos filmes e dos relacionamentos ao nosso redor. Era assim que eu via. Talvez por inocência, talvez porque o mundo nunca tenha me dado razões para ver diferente. A verdade, no entanto, é que, aos olhos do Brasil, não éramos um casal como os outros. E eu só pude perceber isso na primeira vez que saímos de mãos dadas.

Eu me lembro bem daquele dia. Era por volta do meio-dia, e como é normal no início de março, fazia sol e muito calor. Como teríamos aula à tarde, decidimos almoçar juntos na companhia de um grupo de amigos. Foi a primeira vez que saímos como casal. Não passava pela minha cabeça que algo pudesse dar errado. Por toda minha vida sempre estive muito protegido. Eu sou um homem, branco, classe média e estudava em uma das melhores escolas da cidade. Todas essas características me protegeram de sofrer preconceitos, me blindaram do país em que vivemos. Mas naquele dia algo havia mudado. Eu estava andando de mãos dadas com outro menino, e aos olhos da sociedade eu já não era o mesmo. Ainda em frente ao colégio, no primeiro cruzamento, um homem de dentro de seu carro se deu o direito de gritar que, por ele, nos atropelava. Sejamos justos e analisemos a situação. Estávamos uniformizados, tínhamos 15 anos e estávamos em pleno horário escolar. Mesmo assim, nada o impediu de nos ameaçar. Mesmo com palavras vazias.
Cheguei ao restaurante atônito e passei o resto daquela tarde assim. Ou, para ser honesto, o resto do mês. As primeiras semanas não foram fáceis. Eu evitava contatos físicos em público e durante algum tempo quis terminar. Só deixei de querer quando, depois de muita reflexão, percebi que, se não enfrentasse aquele medo agora, teria dificuldades para lidar com relacionamentos no futuro. Com o tempo aprendi a lidar com aquilo e a aproveitar momentos maravilhosos que temos e tivemos juntos. Claro que situações como essa voltaram a se repetir. Tanto de funcionários do colégio quanto de estranhos na rua, mas aprendemos a lidar. Controlamos gestos de afeto na rua e passamos a não nos incomodar tanto com olhares, desde que em lugares em que nos sentíssemos seguros.
Mas o meu relato não é único. É apenas mais uma gota em um gigantesco oceano de vivências. Sendo boa parte delas muito mais graves do que a minha. Afinal, boa parte dos crimes contra a população LGBT não terminam em meras palavras vazias. Dados do Atlas da Violência mostram que, entre 2015 e 2025 , o número de denúncias contra esse tipo de agressão subiu mais de 1000%. E mesmo que boa parte disso seja fruto de uma redução da subnotificação, não podemos ignorar os fatos. O Brasil é um país perigoso para a população LGBT, e essa periculosidade tem apenas aumentado.
Contudo, o tema que quero tratar aqui hoje não é o da violência física ou dos assassinatos que colocam o Brasil no topo do ranking global. Dessa violência há quem fale melhor ou com mais propriedade. Além disso, esse tipo de agressão eu nunca sofri. O assunto que me traz aqui hoje é menos explícito, mas quase, ou igualmente danoso. A repressão à população LGBT, na maior parte das vezes, não vem por armas de fogo ou pontapés, mas de palavras e discursos de ódio. São elas que servem de base para esse sistema de violência. Elas tentam minar nossa confiança, aumentar nosso medo e tirar nossa coragem de ser quem somos e amar quem amamos. E para isso, é preciso que nos façam sentir vergonha. E mais do que isso, que nos sintamos desconfortáveis em expressar a nossa própria essência. Inegavelmente essa tática funciona. Ela nos corrói por dentro e faz com que tratemos a nossa sexualidade como, muitas vezes, um segredo. E para combater isso é preciso nadar contra a correnteza e, apesar dos riscos, se levantar. Contra a vergonha, se usa o orgulho. O orgulho de ser quem é, de amar quem ama e de falar o que pensa, mesmo que à revelia de uma sociedade conservadora.
E talvez a expressão mais conhecida disso no Brasil seja a Parada do Orgulho, em São Paulo. É quando a Avenida Paulista é tomada por quem se reconhece como LGBT e por quem apoia a causa. Quando bandeiras coloridas tomam as ruas para se manifestar a favor do amor e de uma população tão marginalizada. O movimento é hoje considerado a maior parada do planeta, e atrai ano a ano milhares de pessoas e centenas de milhões de reais. Só no ano passado, por exemplo, o montante de dinheiro movimentado foi tão grande que, segundo a Associação Comercial de São Paulo, injetou mais de 500 milhões de reais na cidade. Mas, mesmo com o estrondoso sucesso, o movimento tem sido escanteado por empresas e atacado pelo Estado. O número de patrocinadores caiu de 12 para 9, com uma redução orçamentária que passa de 60%. Além disso, projetos que tramitam na câmara dos vereadores da cidade e na Assembleia estadual, almejam proibir a presença de crianças na parada e até impedir que ela aconteça na Avenida. Mas agora perceba, o verdadeiro problema aqui relatado não é exatamente a queda no orçamento. Porque isso não é causa, é efeito. Um sintoma de um problema muito maior, ele indica que empresas pararam de ver ganhos no apoio a essas causas. Pelo contrário, agora, no mundo de hoje, se atrelar a esses movimentos é visto como danoso.
Ao se cortar investimentos e propor leis como essas, nós, como sociedade, retrocedemos. Porque a partir do momento em que a parada perde espaço, ou até mesmo o direito de acontecer na rua, a mensagem é clara. Não querem que sintamos orgulho de quem nós somos. Não querem que tenhamos visibilidade. Quando o Estado e o mercado atentam contra uma manifestação como essa, eles tentam nos escantear e nos tirar das ruas, como se nosso lugar não fosse aquele. Da mesma forma que aquele homem, naquele cruzamento, quis que eu acreditasse. A verdade, no entanto, é que as ruas são de todos nós e que a vergonha precisa mudar de lado.
Por: Francisco Jose Dantas de Faria



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